With poetic licence – Adélia Prado

Adélia Prado

When I was born a slim angel,
the type that blows trumpets, announced:
she’ll carry the flag.
Very heavy load for a woman,
even today a downtrodden species.
I welcome the tricks that suit me,
without having to lie.
Not so ugly I can’t marry,
I think Rio de Janeiro’s beautiful and
do and don’t believe in painless childbirth.
But, what I feel I write. I’m true to my stars.
I inaugurate bloodlines, found realms
—pain is not bitterness.
My sadness has no pedigree,
but my longing for joy,
its roots go back a thousand years.
To limp through life is man’s fate.

Women are flexible. I am.

Adélia Prado

(translation by John Lyons)

Brazil’s greatest living poet, Adélia Prado was born in 1935 and lives in Divinópolis, Minas Gerais.


Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
—dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.