Adélia Prado – Marriage

There’re women who say:
My husband, if he wants to fish, let him fish,
but let him clean the fish.
Not me. At any time of the night I get up,
Help with descaling, slitting open, filleting and salting.
It’s so good, just the two of us alone in the kitchen,
from time to time our elbows bump,
he says things like “this one was tricky customer”
“he flashed his silver tail in the air”
and he makes the gesture with his hand.
The silence of when we first met
flows through the kitchen like a deep river.
Finally, the fish on the platter,
we go to bed.
Silver things blossom:
we are bride and groom.

Adélia Prado

From , Terra de Santa Cruz (1981)

Translation by John Lyons


Casamento

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, que pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
Ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Terra de Santa Cruz (1981)

With poetic licence – Adélia Prado

Adélia Prado

When I was born a slim angel,
the type that blows trumpets, announced:
she’ll carry the flag.
Very heavy load for a woman,
even today a downtrodden species.
I welcome the tricks that suit me,
without having to lie.
Not so ugly I can’t marry,
I think Rio de Janeiro’s beautiful and
do and don’t believe in painless childbirth.
But, what I feel I write. I’m true to my stars.
I inaugurate bloodlines, found realms
—pain is not bitterness.
My sadness has no pedigree,
but my longing for joy,
its roots go back a thousand years.
To limp through life is man’s fate.

Women are flexible. I am.

Adélia Prado

(translation by John Lyons)

Brazil’s greatest living poet, Adélia Prado was born in 1935 and lives in Divinópolis, Minas Gerais.


Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
—dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.